Lançado ao mar
A noite estava sóbria, embora não fosse essa a sensação que se traduzia a carne seca. Enquanto a mente do nosso rei perambulava aos mais extensos fins da consciência, buscando um temerário fim a seus pensamentos, brisava em seu arredor o temerário momento que lá ocorreu, embora perdesse a ideia de espaço a muito tempo atrás.
Pouco refletiu em sua frenesi materializada que agora era realidade os motivos que o levaram a esse abismo, achava que ao voltar teria o tempo para enfrentar os milhares de corpos que proferiram as maiores bênçãos e maldições que podia imaginar.
Mas não, o ao redor deu lhe em suas veias uma súbita familiaridade, pela vegetação seca da vida ainda ressentia o ar ferroso de batalhas folclóricas recitada por loucos vendados pela rua, profetizando o apocalíptico fim do prefeito tirano que retirou seu barril de residência.
O sangramento azul contornava os passos largos e abatidos de Sebastião enquanto tentava correr de volta ao purgatório árido, sentia seus décimo primeiro ao de reinado cobrando por um término entre os sussurros do crepúsculo, que pouco tardaram a condensarem com os terrores da memória.
Pelo som da corneta subiu ao ar as pétalas decompostas de flores traídas pelo seu desejado, rugindo pelo céu os tambores da guerra. Consentiu ao chamado passos destemidos a tremerem as amarguras desacordadas pelo fugitivo, ancorada pelos projéteis que cortavam a vista das estrelas, apagando o fim deste inferno dos registros do cosmos.
Embora não visse pouco demorou para seu fôlego denunciar a trajetória negacionista. Considerou a reza mas pouco se lembrava dos ritos, se Deus não lhe daria nem um compasso a Portugal, porque o daria o perdão de seus pecados?
Corria como nunca, mas pouco servia para fechar as portas de arrependimento. Um arrepio atordoou o garoto num tiro de flecha.
De pousar sentiu os seus restos de ser diluindo entre os passos dos temidos bárbaros, por mais que não soubesse mais se ele mesmo era um mouro ou de Aviz, quem é ele a se importar quando nem a Malária tremeu perante a realeza? pouco restou as estrelas para o funeral enquanto o mundo se desfazia.