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Destaques

Lançado ao mar

     A noite estava sóbria, embora não fosse essa a sensação que se traduzia a carne seca. Enquanto a mente do nosso rei perambulava aos mais extensos fins da consciência, buscando um temerário fim a seus pensamentos, brisava em seu arredor o temerário momento que lá ocorreu, embora perdesse a ideia de espaço a muito tempo atrás.     Pouco refletiu  em sua frenesi materializada que agora era realidade os motivos que o levaram a esse abismo, achava que ao voltar teria o tempo para enfrentar os milhares de corpos que proferiram as maiores bênçãos e maldições que podia imaginar.      Mas não, o ao redor deu lhe em suas veias uma súbita familiaridade, pela vegetação seca da vida ainda ressentia o ar ferroso de batalhas folclóricas recitada por loucos vendados pela rua, profetizando o apocalíptico fim do prefeito tirano que retirou seu barril de residência.     O sangramento azul contornava os passos largos e abatidos de Sebastião enquan...

O que não te contam no Sampa

         As cidades periféricas à São Paulo e propriamente São Paulo podem muito bem ser apenas uma versão "lite" e "original" do mesmo produto de cidade grande. Tudo menos atenuado. Os pulmões mais fumentados e as ruas mais movimentadas. Mais vidas mas menos flores no tronco aonde todos os galhos passam para se nutriz da raiz. Mas ainda me sinto estrangeiro nessa terra aonde os contrastes das vidas dos de concreto e de Rolex se passam na mesma rua - ou talvez seja isso a herança do Brasil pós-COVID, mas de qualquer forma, os efeitos são o mesmo.

    Me conturba a mesma rua habitarem na mesma rua cobertores e roupas de luxo, mas com qual a minha vida se parece mais no final de contas? Vale de algo a mais ter a consciência do olhar humano de um sofrimento desumano? Escrevo isso por dó de mim ou por me importar com o que descrevo? Um desejo altruísta ou uma afirmação de estima egoísta?

    Eu poderia dissertar mais, colocar alguma paixão e esperança no futuro nesse texto pra conseguir concluir algo disso. Fingir que me inspiraria a revolucionar o mundo para mudar essa paisagem de vez, de que meus sonhos são diferentes em suas intenções de bondade. Embelezar a minha pessoa e meu caráter das boas ações que eu fiz para esses meros bobinhos da rua. Mas é deprimente escrever isso no conforto da minha casa e cama, escrevendo situações que sou um mero observador. 

    Que por mais que eu tenha contribuído com algo, mesmo que não necessariamente financeiro, mas por querer tentar interagir como se estivesse falando com um ser humano e não um coitado ou marginal. Recebendo respostas humanas as minhas sinceridades - ou pelo menos acho ser sinceras -  que mais vezes que não, não vai ajudar essa pessoa com um saco de arroz ou feijão. 

    E assim acaba meu dia, escrevendo sobre pessoas que dormem em uma noite fria, só não mais fria do que os passos que passam ao lado de suas cabeças. E eu, que não sou muito diferente desses passos, mas com a diferença que venho em meu computador com luz, água, comida, internet, roupas confortáveis, num meio de comunicação que nem teriam a possibilidade de ler para me dizerem se isto é de alguma forma diferente de uma pornografia da pobreza. 

    Não acho que me agrada saber que não sou o único que vive com isso na mente, mas pelo menos é sincero, se vale de algo não sei, mas pelo menos entra mais na parte do purgatório do que da aventura

    

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